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O Morro do Bumba interno

No início de abril, acompanhando a avalanche de terra e lixo no Morro do Bumba em Niterói, ficamos sabendo, estarrecidos, que aquela comunidade vivia, na verdade, sobre um grande lixão. Exteriormente, ruas pavimentadas, iluminação, construções, uma vida normal, aparentemente. Só que tudo isso construído sobre uma base oca, vulnerável, sem sustentação.

Fazendo uma analogia do Morro do Bumba conosco, podemos refletir : qual é a base em que me apóio ?

Vivemos numa sociedade em que o TER se tornou mais importante do que o SER. Nossas “necessidades” são tantas que acabamos perdendo o rumo. E, quando precisamos enfrentar alguma adversidade, somos surpreendidos com sensações de vazio, insatisfação, inquietação, inadequação, angústia, incapacidade, não aceitação de situações, e reagimos com irritação, medo, tristeza.

O que nos conduz a ficar neste estado permanente ? Algo me diz : “As coisas não estão como eu gostaria.” Mas eu insisto, dizendo que está tudo bem, daqui a pouco passa.” E daqui a pouco, outra situação e aquele desconforto se repete.

Ficamos tentando achar a causa e percebemos que falta algo. Que algo é esse ? Será que aquele TER me dá sustentação ?

Nossa tendência é achar que o problema está no outro e continuamos repetindo um determinado padrão, inconscientes de nosso próprio estado mental. Ao longo das experiências da vida, acumulamos “lixo” emocional, sem nos darmos conta de quanto isso fermenta em nosso interior e transparece em nossas atitudes. Por vezes, acabamos “desabando” nossas angústias, frustrações, tristezas, mágoas em cima do outro, quase sempre, daqueles mais próximos.

Tudo isso é natural da vida, acontece. O que é anti-natural é vivermos acumulando estes resíduos, inconscientes desse processo.

Temos a opção de fazermos uma “faxina interna”, limpar o “lixo”. Assim, nos tornamos mais centralizados, pois ficamos conscientes de nossos pensamentos, palavras e atitudes, fortalecendo nossa auto-estima e conseqüentemente, melhorando nossos relacionamentos pessoais.

Podemos mudar sim, o que está lá fora, mas a mudança começa aqui dentro de “minha casa”, tijolo a tijolo. E quando percebemos, nossa “casa” está construída sob alicerces sólidos e sustentáveis, as pequenas adversidades do cotidiano não nos derrubam com tanta facilidade, como acontecia antes.